Como em todos os anos o mês de abril se aproxima e logo em seu início é informado o reajuste na tarifa de energia elétrica para o estado de Mato Grosso do Sul atendido pela concessionária ENERSUL. Faz parte desse processo o envio de informações da distribuidora para a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL, necessárias para tal definição, o que serve de sinal de alerta quanto ao índice final a ser anunciado.
Hoje, o consumidor de Mato Grosso do Sul pode comemorar, em parte, o respeito conquistado já que a concessionária veio à público apresentar, de forma resumida, o pleito encaminhado para a agência reguladora. Entretanto, ainda há uma fronteira muito tênue entre o respeito ao cidadão sul-mato-grossense e a ousadia na composição dos números finais, ainda que decorrentes de formulação matemática definida pela própria agência, na maioria dos casos.
Os números apresentados pela concessionária de certa forma mostram o cenário nacional no que diz respeito à incidência de tributos na composição da tarifa, além das consequências de ações políticas ainda pouco claras para o cidadão comum.
O índice que consta no pleito da concessionária inicialmente divulgado de 19,35%, foi contrariado pela planilha apresentada hoje pela ANEEL que aponta para um impacto médio de 17,56%, porém considerando que o índice é composto, de acordo com a mesma planilha, por dois componentes: 7,90% referentes ao reajuste econômico e 12,38% referentes aos ajustes financeiros do período de análise – 08 de abril de 2010 a 07 de abril de 2011, mais uma vez ficamos à mercê de um entendimento ainda pouco claro.
A participação da parcela A na composição do índice é reflexo de políticas energéticas cujo foro de discussão encontra-se hoje na esfera federal, como por exemplo a Medida Provisória 487 e a prorrogação da Reserva Geral de Reversão – RGR, entre outras. Porém, a recomposição da Parcela B, gerenciável, mostra que a concessionária ainda tem o que melhorar já que o menor índice homologado foi de 1,91% contra os 3,87% da distribuidora.
Uma análise mais detalhada poderá ser feita a partir de hoje já que finalmente a ANEEL disponibilizou a planilha do Pleito que nos permite validar os 5,26% referentes à liquidação do erro de 2003, lembrando que ainda existe uma representação junto ao Ministério Público Federal questionando a validação dos números da primeira devolução, com reflexos ainda não mensurados para as demais parcelas, o que certamente contribuirá para a redução do índice pleiteado pela concessionária.
A complexidade da estrutura tarifária, aliada a um processo de reajuste ainda pouco inteligível para o cidadão comum, tornam essa guerra uma autêntica batalha campal em que ainda predominam a desinformação e a insistente politização de um tema eminentemente técnico. As intervenções políticas nas suas diversas esferas contribuem para que o valor pago pela energia seja onerado em algumas situações de maneira questionável, sejam pelos encargos setorias, pelas políticas de subsídios federais, pela incidência de ICMS ou pela COSIP.
Ainda que a concessionária seja uma mera repassadora de parte dos valores que arrecada, percebe-se o amadurecimento da sociedade quando ela começa a discutir variações percentuais dentro dessa composição fora da realidade do dia-a-dia, como os 27% do RGR, 22% de P&D e Eficiência Energética ou os quase 70% de variação no repasse para o Operador Nacional do Sistema – ONS.
As discussões sobre tarifa e valor pago pela energia envolvem aspectos técnicos ainda distantes do cidadão leigo, porém, é esse mesmo cidadão que arca com o ônus imposto, sem muita voz em meio às bravatas de discursos políticos vazios e tecnicismos exagerados para explicar, em muitas vezes, o inexplicável: aumento acima da inflação!